CENA
Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
Crónicas do Dr. Ribeiro (4)

Sobre a delegada de propaganda médica Filomena Fernandes

 

Ainda enquanto adulto jovem, e casadinho de fresco, eu e minha mulher gozávamos a vida como ninguém. A minha esposa era nessa altura uma mulher deveras atraente, uma mulher que qualquer mancebo residente na Lousã ambicionava ter. Não havia um congresso em que eu não levasse a Sãozinha…e quando não levava, logo perguntavam: “Ó Ribeiro, então não trouxeste a tua mais que tudo?... e os mais malandros ainda comentavam: “ Ribeiro, Ribeiro, não fosses tu casado pela Igreja com a Sãozinha, que era eu que levava essa Quinta Maravilha do Mundo ao Altar!”… ora, um homem sentia-se bem por ter arranjado uma mulher assim.

 

Ora, com o passar dos anos, as coisas foram mudando… vieram as rugas e logo atrás, veio a má disposição, a casmurrice, os caprichos de velha, as dores abdominais, a amargura, a fealdade facial que afinal de contas sempre lá tinha estado, as alergias, a primeira operação ao útero e anexos, as idas ao psiquiatra, o ciúme injustificado, culminando todo este negro cenário numa segunda operação ao útero, 6 anos depois de casados.

 

Se bem que o Magnífico Doutor Andrade me tinha sempre alertado para as doenças próprias da mulher, um indivíduo pensa sempre que essas mazelas não vão acontecer à sua… mas aconteceram.

 

Perante isto, em pleno início de um Verão Lousanense que se adivinhava particularmente quente, disse eu ao jantar as seguintes palavras: “Chega!”… e disse  ainda:”Este ano, não vou contigo de férias a Vilamoura! Vais só tu, que eu não te consigo aturar mais!”.

 

A Sãozinha não queria acreditar no que estava a ouvir. Perguntou-me, já em tom de despedida: “Ribeiro, tu já não me amas?”. E eu, confiante na minha decisão, respondi: “Agora não amo! Quando vieres de férias, logo se vê se te amo ou não.” E lá se pôs ela de malas a aviar.

 

Nos primeiros dias, considerei-me um homem bravo e contundente… mas depois de uma semana, passei-me a considerar um homem sozinho… e depois de um mês, já me considerava um homem bem triste e solitário. Então, comecei a fazer telefonemas para a Sãozinha a toda hora, várias vezes por dia, ainda que fosse cara a tarifa Lousã-Vilamoura. “Volta para mim”, dizia eu. “Nem morta!”, dizia ela. “Mas eu amo-te”, dizia eu. “Tu nem a tua mãe que Deus tem, amas!” dizia ela.

 

Estava difícil de a convencer a reatar a relação. Ainda que a Sãozinha se tivesse transformado numa mulher chata, sozinho é que eu não podia ficar…nem que não gostasse dela, tornava-se imperioso que eu arranjasse uma companhia, nem que fosse apenas para ir comigo aos Congressos lá fora.

 

Os dias no Centro de Saúde iam-se tornando cada vez mais difíceis, cada vez mais longos, mais sombrios… O trabalho já não me agradava… Ai se o Doutor Andrade fosse vivo naquela altura!... o que ele não diria de mim!... dava-me um responso de todo o tamanho, e punha-me a fazer consultas de Planeamento Familiar, que bem me lixava eu!”

 

Nisto, já no fim de um dia de trabalho, chega-se a Manuela à porta do gabinete, e diz-me: “Soutor Ribeiro, doentes já não tem, mas está aqui uma delegada de propaganda médica que gostava de falar consigo… quer que a mande entrar?”. Ainda não tinha eu abanado a cabeça a dizer que sim, já me entrava pelo consultório adentro, esta voluptuosa mulher, nos seus 40, que mais parecia um Avião! Aquilo só lha faltava voar, porque Asas tinha ela que chegue! Apresso-me a chegar-lhe uma cadeira, e já me estava ela a dizer: “Doutor Ribeiro, o meu nome é Filomena Fernandes, vendo ALKA SELTZER, e estou aqui para o servir.”…

 

Foi a coisa mais bonita que me tinham dito nos últimos meses! Fiquei impressionado como era possível esta junção perfeita numa mulher: por um lado a beleza, por outro a inteligência… Conversamos durante horas naquele fim de tarde, perdemos ambos a noção do tempo, ela conhecia os mesmos medicamentos que eu, tínhamos partilhado os mesmos congressos, embora, infelizmente, em quartos de hotel diferentes, e pelos vistos, ambos estávamos descomprometidos naquela altura da vida, ela divorciada há 2 longos anos, e eu, há um mês sem ver a minha mulher, quiçá, à beira do divórcio também…

 

Senti uma tamanha cumplicidade, que decidi que naquela mesma noite, algo “malandro” iria acontecer entre nós… ainda no consultório, chamei-a então para o meu colo, sob o pretexto de ser surdo de um ouvido… ela, ainda a medo, acedeu, e continuou a contar as suas histórias, sentada agora com as suas coxas mesmo por cima das minhas…

 

Às tantas, eu já não a estava a ouvir… eu já só sonhava com o Pagode… eu já só queria Pagode!

 

Encho-me de coragem, inspiro profundamente, e sai-me esta pergunta: “Ó Filomena, você quer Pagode comigo?”…

 

Ela, subitamente em silêncio, com um olhar gelado como eu nunca antes tinha visto, e após o que viria a ser uma longa pausa, inflige-me as seguintes palavras: “Doutor Ribeiro, percebeu mal o meu intento… eu vendo pastilhas dispersíveis… não faço maroteiras no trabalho!”. Nisto, salta do meu colo bruscamente, e foge-me por entre os meus dedos, que estavam já dispostos a amar esta mulher, deixando-me sozinho no gabinete, com as calças de bombazina castanha relativamente molhadas…

 

Senti-me um homem ferido, eternamente apopléctico, acabado…

 

Aparece então a Manuela no gabinete, que a meu ver, assistiu a esta tragédia por entre a fechadura da porta, e pergunta-me se estava tudo bem… embora eu tivesse dito que sim, era difícil esconder as lágrimas que brotavam dos meus olhos e era também difícil esconder o que era agora uma mancha de média dimensão na calça de bombazina.

 

Disse-me então a minha enfermeira Manuela: “ Doutor Ribeiro, um Médico não chora! Recomponha-se! Essa safada que acaba de sair não merece! Hoje mesmo, sou eu que lhe preparo o jantar! Venha! Venha!”

 

A Lousã estava triste… o seu Ribeiro tinha sido injustiçado… mas enquanto herói desta vila, precisava de me alimentar!... Levantei-me da Cadeira, arredei as lágrimas para o lado e fui comer o melhor Bacalhau à Brás de sempre!



publicado às 00:00
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Comentários

De Lopes da Silva a 15 de Fevereiro de 2009 às 11:49
Pagode? O Dr. Ribeiro saiu-me cá um malandreco...


De César a 12 de Fevereiro de 2009 às 19:20
O Soutor Ribeiro ficou ressabiado e quem foi ao castigo foi a enfermeira Manuela, como já era costume…
Bacalhau à Brás! Chamem-lhe o que quiserem.


De Ruru a 12 de Fevereiro de 2009 às 18:34
O Sr. Doutor foi demasiado brusco nas palavras usadas, deveria tê-la convidado para o pagode fora das horas de expediente, contudo uma história triste


De jakiXi a 12 de Fevereiro de 2009 às 03:15
« “Doutor Ribeiro, o meu nome é Filomena Fernandes, vendo ALKA SELTZER, e estou aqui para o servir.”…

Foi a coisa mais bonita que me tinham dito nos últimos meses! »

eh pa lindo!


De Alexandre Kulcinskaia a 12 de Fevereiro de 2009 às 12:18
Então e a Enfermeira Manuela?! Não quereria ela Pagode?
Ah Dr. Ribeiro, seu D.Juan da Lousã.
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http://kulcinskaia.blogs.sapo.pt/


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