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CENA

CENA

26
Fev09

Crónicas do Dr. Ribeiro (6)

gana

Sobre o meu Curriculum Vitae

 

Em jeito de conclusão, penso que para realmente conhecerem o meu trabalho, nada melhor do que disponibilizar o meu Curriculum Vitae, na versão europeia “standardizada”. As histórias na primeira pessoa poderão trazer vieses e uma parcialidade, próprias do meu entusiasmo, que devem ser filtradas através de uma análise detalhada e fiel dos factos. Para isso, o meu Curriculum Vitae

 

Rui Manuel Lemos Ribeiro, filho de José Oliveira Ribeiro e Maria Costa Lemos, nasceu em Brasfemes, freguesia de Coimbra, a 12 de Maio de 1957. É divorciado e reside em Coimbra. Portador do BI nº 16574930. Está inscrito na Ordem dos Médicos com a cédula profissional nº 55839.

( mas serei casado pela igreja até à eternidade com a minha Sãozinha, mesmo que esta se mantenha a residir em Vilamoura…no Céu, juntar-nos-emos em Alegria )

 

Concluiu o Curso Complementar do Ensino Secundário no Colégio S. Teotónio com a classificação final de 19 valores - 1975

 

Candidatou-se ao Ensino Superior com a classificação de 12 valores - 1975

( era o primeiro ano em que iriam introduzir as PROVAS ESPECÍFICAS, o que acabaria por baixar a média de liceu a todos os alunos, incluindo a minha…na altura, a minha Professora de Biologia comentaria este revés na minha vida, dizendo: “Ribeiro, um homem não se mede por uma nota isolada! Você irá longe! Longe! Bem longe!”…mal ela sabia que prenunciava já a minha vinda para a Lousã )

 

Foi admitido como aluno do Curso de Engenharia Biológica Aplicada da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra - 1975

( nunca cheguei a frequentar este curso, porque embora fosse um curso com relativa notoriedade para a época, o que eu e meus pais sempre quisemos, era Medicina. Medicina em Coimbra )

 

Repete o 12º ano do Curso Complementar do Ensino da Escola de Angra do Heroísmo com a classificação final de 17 valores – 1976

( por decisão de meu pai. fomos passar o ano de 76 aos Açores…acabariam os meu pais por lá festejar as bodas de prata )

 

Candidatou-se ao Ensino Superior, ao abrigo do Contingente da Região Autónoma dos Açores, com a classificação de 12 valores - 1976

 

Foi admitido como aluno do Curso de Engenharia Geológica não Aplicada da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra - 1976

( era o segundo ano em que estavam a implementar as PROVAS ESPECÍFCAS, o que ainda baixava a média a vários alunos, incluindo a minha…acabei por não frequentar este curso, embora tivesse feito algumas amizades em Coimbra, nesse ano )

 

O ano de 77 foi um ano funesto para a família Ribeiro…minha Mãe viria a ser operada aos Anexos, meu Primo Nuno fugiria de casa dos meus tios para voltar somente 10 anos depois, já casado e com 2 filhos e eu e meu Pai viríamos a ter um grave acidente de viação na ESTRADA NACIONAL…um acidente algo enigmático e que até hoje não compreendo na sua totalidade…a visibilidade na estrada era excelente, não havia mau tempo, lembro-me que era um dia solarengo e meu pai conduzia a uma velocidade regular e segura…de súbito, disse-me: “Ribeirinho, pró ano tu vais entrar em Medicina!”. Depois, sem que eu tivesse observado qualquer obstáculo inesperado, meteu bruscamente a mão ao travão, o carro despistou-se e fomos embater num Carvalho, não tendo meu pai sofrido qualquer lesão, mas eu, porque seguia no Lugar do Morto, viria a ser projectado 1 metro para a frente, tendo feito um grave entorse do pé esquerdo. Iniciei esse ano Reabilitação Física na minha área de residência.

 

Candidatou-se ao Ensino Superior, ao abrigo do Contingente de Deficiência Física, com a classificação de 16 valores - 1978

 

Foi admitido pela segunda vez como aluno do Curso de Engenharia Biológica Aplicada da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra - 1978

( porque era um curso com conceitos semelhantes à arte médica, meu pai decidiu que eu iria frequentar este curso, e logo se veria o que fazer no futuro…entretanto, já a viver a Tradição de Coimbra, e seguindo os conselhos de meu pai, inscrevi-me numa Secção Desportiva da Associação Académica de Coimbra, na altura, afamada pelos seus desportistas afincos e estóicos )

 

Candidatou-se ao Ensino Superior, ao abrigo do Contingente de Alta Competição, com a classificação de 19 valores – 1979

 

Foi admitido como aluno do Curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra - 1979

( que felicidade foi este momento para mim…era aliás esperado por todos na família…de todo o lado surgiram telefonemas…minha Tia deu-me um bolo, o meu Padrinho de Baptizado ofereceu-me um PÓNEI, e meus pais, em pleno rejubilo, organizaram um jantar no pátio, com cerca de 40 convidados…ainda hoje me lembro do discurso proferido por meu pai, já embriagado, no culminar deste grande festejo…”O Ribeirinho vai ser médico, e eu comprei 10 Leitões para festejar! Bem-vindos sejais à Festa Brava!”…diz-se que a felicidade foi tanta nessa festa, que meu primo Nuno voltaria a engravidar a sua esposa nesse mesmo dia )

 

Concluiu a Licenciatura em Medicina, com a classificação de Bom, 14 valores

1979 – 1990

 

Realizou a Periferia Clínica no Sanatório de Coimbra

1990 – 1995

 

Cumpriu funções de Médico de Medicina Geral e Familiar no Centro de Saúde da Lousã

1995 – 2006

( nesta altura, não era preciso tirar a especialidade para ser clínico geral )

 

Cumpre funções de Médico Escalado para o Serviço de Urgência nos Hospitais da Universidade de Coimbra

2008 -

( os HUCs )

 

 

É uma história bem bonita a minha…Tenho a perfeita noção disso.

Ainda no outro dia, no café, me perguntavam: “Ó Ribeiro, na tua longa carreira, o que é que tu salientas como mais importante? O que é que tu achas que foi decisivo na tua práxis?”

Ao que eu respondi: “O mais importante na minha carreira, fui Eu.”

 

 

19
Fev09

Crónicas do Dr. Ribeiro (5)

gana

Sobre a Festa mais Bonita da Lousã – os 22 Fados de Coimbra

 

Ora, ainda naquela época funesta em que minha mulher decidiu ir morar para Vilamoura, resolvi eu, e porque era homem para isso, tentar controlar a sua vida, ainda que a centenas de quilómetros de distância. Sempre fui um indivíduo com poder e com um saber algo invulgar para gerir os seus próprios recursos. E neste caso, o meu recurso mais próximo era o Peres…o Peres era meu amigo de infância, daqueles amigos que, por mais medíocres que sejam, permanece sempre a ternura de jogar à bola com ele, em tenra idade. Quando pequenos, rasteirou-me bastas vezes, mas no fim da 4ª classe, quem tinha o pé boto era ele. Daí que, resolvi manter esta amizade de longa data… não era médico como eu, é bem verdade, nem tinha sequer um quarto da quantia que eu depositava naquela altura na CAIXA, mas era um homem a quem se podia pedir um favor, um homem submisso. E sabendo eu que ele morava na Quarteira, ninguém melhor que o Peres para vigiar a minha mulher… ficou então combinado que, sempre que ele avistasse a Sãozinha com um homem diferente, me devia telefonar imediatamente, deixando mensagem em correio de voz, caso eu estivesse em plena consulta.

 

E ele assim fez…no princípio, achei inusitado que todas as semanas tivesse um novo telefonema, informando-me de um novo senhor que entrava de rompante na vida dela… pensei mesmo que estas histórias se ficavam apenas por um jantar bem bebido... mas depois o Peres começou-me a relatar algo dantesco para a minha própria formação… aparentemente, estes senhores entravam na casa da minha esposa à Sexta-Feira à noite e só acabariam por sair no Domingo depois do almoço… Fim de Semana atrás de Fim de Semana… que coisa medonha estava eu a tomar conhecimento.

 

Já bastante cabisbaixo e sem qualquer esperança que a Sãozinha deixasse esta vida de grande cidade, um dia, os telefonemas do Peres terminaram abruptamente! Não mais eu ouvia estas histórias intermináveis de Homens a enganarem uma Inocente…pensei que a minha Sãozinha estava a voltar para mim!

 

Mas também neste assunto eu me surpreendi com a realidade dos factos…acabei por saber, dois meses depois, que o senhor Peres se fazia acompanhar da minha Sãozinha todas as Sextas-Feiras à noite, nas sessões dançantes do Casino de Vilamoura!

 

O “Pé Boto” andava em cima da Sãozinha! Literalmente! Em cima Dela!

 

Perante este desgosto, e porque tinha que refazer a minha vida, grandiosa até então, resolvi que naquele ano, seria eu a organizar o grande Natal dos Hospitais da Lousã! Até aquela data, esta festa anual consistia num pequeno lanche com os doentes, seguido de uma Homilia, culminando na Confissão dos mesmos com o Prior da Lousã. Ora estava visto que o programa deste evento tinha que mudar! Era rotineiro! Numa das últimas realizações, diz-se que um doente feito o seguinte comentário: “Então se eu sou doente, onde é que está a minha Prenda? Ou eu não tenho direito a Menino Jesus? É só para os Ricos? Então dêem-me Alta deste Centro de Saúde! Quero ser internado num Centro de Saúde onde tenha Menino Jesus na manhã a seguir à Consoada!”

 

Não havia tempo a perder! Em menos de uma semana, pus a Lousã inteira a trabalhar para este grande evento! Vieram lenhadores das terras mais próximas de modo a que se pudesse construir uma grande Cabana para o Menino Jesus, do Algarve consegui um Dromedário, que embora em número insuficiente, representava a alegria dos Reis Magos, as costureiras da Lousã prepararam toda a indumentária para o dia da representação “Nas Palhinhas Deitado”, para Coimbra dirigiu-se o Presidente, numa carrinha do município, com o objectivo de trazer Prendas em conta, da Baixinha (Sapatos da loja Teresinha para toda gente foi um capricho meu que o presidente não hesitou em aceitar, na condição de se poderem trocar caso o número do pé não fosse o correcto), das Caldas trouxe o meu sobrinho, Canecas, para que se pudesse beber o Cacau da Meia Noite, da Praia de Mira, em 2 Camiões, veio o Bacalhau fresquinho e já dessado e da Cooperativa da Lousã, paguei eu do meu próprio bolso o melhor Vinho da região, O “Lousanense”, de modo a que também os próprios doentes pudessem saborear e degustar algo mais que não fosse a comida da Cantina, e quiçá, ficarem até um pouco alegres… tudo era permitido nessa grande Noite que iria ser o Natal dos Hospitais da Lousã! Distribuíram-se ainda Preservativos para toda a gente, tendo em conta o entusiasmo que iria decorrer daquela grandiosa Noite.

 

Ora só faltava uma coisa, que tão-somente era o mais importante: as Variedades! Precisávamos de um Artista convincente, alguém que pudesse cativar o público doente e demenciado que assistiria pela noite fora a tão maravilhoso espectáculo. E nesse particular dilema, eu não tive qualquer dúvida. O Artista ia ser Eu! Dez anos na Tuna da Faculdade de Medicina de Coimbra iriam finalmente dar os respectivos frutos! O Pandeireta ia voltar a actuar! Decidi então dar a esta gente o que há muito eles mereciam… 22 Fados de Coimbra pela noite fora, tocados, cantados e orquestrados por mim, com um intervalo para comes e bebes! Ideia adorável!

 

E assim foi… a noite estava fria, mas o calor daquela gente seduziu-me desde o início… a representação do Presépio correu maravilhosamente bem, ainda que o bebé real que fazia de Menino Jesus estivesse a tiritar de frio, o Bacalhau pôs toda a gente a chorar por mais e a distribuição de Prendas foi um dos momentos altos da noite. Claro está que o Pai Natal era cá o Doutor Ribeiro! Com Barba Branca, ninguém estava a reconhecer o Doutor Ribeiro! Ninguém estava a topar que era eu que andava a distribuir os sapatos da Teresinha! O único malandro que me descobriu, foi o sacanita do meu sobrinho mais novo, o Nunito… o malandro, agachado no chão, meteu-se por dentro das minhas vestes e manda-me o seguinte piropo: “Estou a ver o mangalho do Doutor Ribeiro! É bem grandão! É bem grandão!”. O malandreco do gaiato foi o único que me reconheceu…

 

E para acabar a noite, começo então a cantar os 22 Fados de Coimbra… que bonita performance… a minha Voz estava efectivamente no tom certo… ouvia eu por entre a assistência os seguintes comentários: “O Zeca levantou-se do caixão!” ou ainda “Este deve ser sobrinho dos da Câmara Pereira!” e ainda “O Soutor Ribeiro mexe na guitarra como se fosse um Auscultador para auscultar!”. Que bonita noite…

 

Na última canção, ainda assim, algo triste viria a acontecer… estava eu na última estrofe e no meio do público, gritou a Manuela o seguinte: “Doutor Ribeiro! Doutor Ribeiro! A Antónia acaba de desmaiar! A nossa doente mais idosa acaba de desmaiar! Venha! Venha salvá-la!”… Mas eu estava a terminar a última canção… E por outro lado, esta velhota estava constantemente a desmaiar desde há anos, ininterruptamente, quando soube que o neto ia para as Colónias. Por esses e outros motivos, tomei a decisão clínica de primeiro finalizar o espectáculo e depois ir acudir à velhota.

 

Terminei então a cantoria e recebi um Aplauso contundente de toda aquela assistência. Senti-me enobrecido e dirigi-me então à Antónia…Palpei-lhe o pulso carotídeo e observei cautelosamente os movimentos da caixa torácica… Após 1 minuto, diagnostiquei o inevitável: estava Morta!

 

Virei-me para a assistência e disse: “Foi o último desmaio da nossa querida Antónia! Era impossível o seu salvamento! Foi a Vontade de Deus!”.

 

E alguém no meio daquela boa gente, emanou o seguinte veredicto: “Foi o Menino Jesus que a levou!”.

12
Fev09

Crónicas do Dr. Ribeiro (4)

gana

Sobre a delegada de propaganda médica Filomena Fernandes

 

Ainda enquanto adulto jovem, e casadinho de fresco, eu e minha mulher gozávamos a vida como ninguém. A minha esposa era nessa altura uma mulher deveras atraente, uma mulher que qualquer mancebo residente na Lousã ambicionava ter. Não havia um congresso em que eu não levasse a Sãozinha…e quando não levava, logo perguntavam: “Ó Ribeiro, então não trouxeste a tua mais que tudo?... e os mais malandros ainda comentavam: “ Ribeiro, Ribeiro, não fosses tu casado pela Igreja com a Sãozinha, que era eu que levava essa Quinta Maravilha do Mundo ao Altar!”… ora, um homem sentia-se bem por ter arranjado uma mulher assim.

 

Ora, com o passar dos anos, as coisas foram mudando… vieram as rugas e logo atrás, veio a má disposição, a casmurrice, os caprichos de velha, as dores abdominais, a amargura, a fealdade facial que afinal de contas sempre lá tinha estado, as alergias, a primeira operação ao útero e anexos, as idas ao psiquiatra, o ciúme injustificado, culminando todo este negro cenário numa segunda operação ao útero, 6 anos depois de casados.

 

Se bem que o Magnífico Doutor Andrade me tinha sempre alertado para as doenças próprias da mulher, um indivíduo pensa sempre que essas mazelas não vão acontecer à sua… mas aconteceram.

 

Perante isto, em pleno início de um Verão Lousanense que se adivinhava particularmente quente, disse eu ao jantar as seguintes palavras: “Chega!”… e disse  ainda:”Este ano, não vou contigo de férias a Vilamoura! Vais só tu, que eu não te consigo aturar mais!”.

 

A Sãozinha não queria acreditar no que estava a ouvir. Perguntou-me, já em tom de despedida: “Ribeiro, tu já não me amas?”. E eu, confiante na minha decisão, respondi: “Agora não amo! Quando vieres de férias, logo se vê se te amo ou não.” E lá se pôs ela de malas a aviar.

 

Nos primeiros dias, considerei-me um homem bravo e contundente… mas depois de uma semana, passei-me a considerar um homem sozinho… e depois de um mês, já me considerava um homem bem triste e solitário. Então, comecei a fazer telefonemas para a Sãozinha a toda hora, várias vezes por dia, ainda que fosse cara a tarifa Lousã-Vilamoura. “Volta para mim”, dizia eu. “Nem morta!”, dizia ela. “Mas eu amo-te”, dizia eu. “Tu nem a tua mãe que Deus tem, amas!” dizia ela.

 

Estava difícil de a convencer a reatar a relação. Ainda que a Sãozinha se tivesse transformado numa mulher chata, sozinho é que eu não podia ficar…nem que não gostasse dela, tornava-se imperioso que eu arranjasse uma companhia, nem que fosse apenas para ir comigo aos Congressos lá fora.

 

Os dias no Centro de Saúde iam-se tornando cada vez mais difíceis, cada vez mais longos, mais sombrios… O trabalho já não me agradava… Ai se o Doutor Andrade fosse vivo naquela altura!... o que ele não diria de mim!... dava-me um responso de todo o tamanho, e punha-me a fazer consultas de Planeamento Familiar, que bem me lixava eu!”

 

Nisto, já no fim de um dia de trabalho, chega-se a Manuela à porta do gabinete, e diz-me: “Soutor Ribeiro, doentes já não tem, mas está aqui uma delegada de propaganda médica que gostava de falar consigo… quer que a mande entrar?”. Ainda não tinha eu abanado a cabeça a dizer que sim, já me entrava pelo consultório adentro, esta voluptuosa mulher, nos seus 40, que mais parecia um Avião! Aquilo só lha faltava voar, porque Asas tinha ela que chegue! Apresso-me a chegar-lhe uma cadeira, e já me estava ela a dizer: “Doutor Ribeiro, o meu nome é Filomena Fernandes, vendo ALKA SELTZER, e estou aqui para o servir.”…

 

Foi a coisa mais bonita que me tinham dito nos últimos meses! Fiquei impressionado como era possível esta junção perfeita numa mulher: por um lado a beleza, por outro a inteligência… Conversamos durante horas naquele fim de tarde, perdemos ambos a noção do tempo, ela conhecia os mesmos medicamentos que eu, tínhamos partilhado os mesmos congressos, embora, infelizmente, em quartos de hotel diferentes, e pelos vistos, ambos estávamos descomprometidos naquela altura da vida, ela divorciada há 2 longos anos, e eu, há um mês sem ver a minha mulher, quiçá, à beira do divórcio também…

 

Senti uma tamanha cumplicidade, que decidi que naquela mesma noite, algo “malandro” iria acontecer entre nós… ainda no consultório, chamei-a então para o meu colo, sob o pretexto de ser surdo de um ouvido… ela, ainda a medo, acedeu, e continuou a contar as suas histórias, sentada agora com as suas coxas mesmo por cima das minhas…

 

Às tantas, eu já não a estava a ouvir… eu já só sonhava com o Pagode… eu já só queria Pagode!

 

Encho-me de coragem, inspiro profundamente, e sai-me esta pergunta: “Ó Filomena, você quer Pagode comigo?”…

 

Ela, subitamente em silêncio, com um olhar gelado como eu nunca antes tinha visto, e após o que viria a ser uma longa pausa, inflige-me as seguintes palavras: “Doutor Ribeiro, percebeu mal o meu intento… eu vendo pastilhas dispersíveis… não faço maroteiras no trabalho!”. Nisto, salta do meu colo bruscamente, e foge-me por entre os meus dedos, que estavam já dispostos a amar esta mulher, deixando-me sozinho no gabinete, com as calças de bombazina castanha relativamente molhadas…

 

Senti-me um homem ferido, eternamente apopléctico, acabado…

 

Aparece então a Manuela no gabinete, que a meu ver, assistiu a esta tragédia por entre a fechadura da porta, e pergunta-me se estava tudo bem… embora eu tivesse dito que sim, era difícil esconder as lágrimas que brotavam dos meus olhos e era também difícil esconder o que era agora uma mancha de média dimensão na calça de bombazina.

 

Disse-me então a minha enfermeira Manuela: “ Doutor Ribeiro, um Médico não chora! Recomponha-se! Essa safada que acaba de sair não merece! Hoje mesmo, sou eu que lhe preparo o jantar! Venha! Venha!”

 

A Lousã estava triste… o seu Ribeiro tinha sido injustiçado… mas enquanto herói desta vila, precisava de me alimentar!... Levantei-me da Cadeira, arredei as lágrimas para o lado e fui comer o melhor Bacalhau à Brás de sempre!

05
Fev09

Crónicas do Dr. Ribeiro (3)

gana

Sobre a Cirurgia Minor em caso de lesão por cabo de sachola

 

Nunca fui de enganar ninguém. Situações ocorreram na minha prática clínica, em que me chamaram disto e daquilo, mas sempre sem fundamento! Gabo-me de ter ganho em Tribunal todas as acusações de que fui alvo. Um homem que é bom naquilo que faz, não tem contas a dar a ninguém… Não era ao acaso que o Magnifico Doutor Andrade me escolhia sempre para ser o Chefe de Turma das Aulas de Anatomia, título que me fazia sentir honrado e ciente do meu dever. É porque de certeza ele via algo em mim, que essa gente acusa-cristos nunca soube apreciar!

 

Numa dessas ocasiões conturbadas da minha vida, vejam bem, entra-me um petiz pela urgência, em óbvio sofrimento, mancando do lado esquerdo, e com três nódoas negras nos queixos, que cá para mim, correspondiam a três pauladas por cabo de sachola, agressão que naquela época era prevalente na Lousã, principalmente quando estava em jogo a disputa de terrenos entre vizinhos. Tratei as feridas do miúdo, na sua maioria contusões ligeiras, não tendo havido necessidade de recorrer a qualquer sutura com fio de nylon. Preocupou-me no entanto, a situação do rapaz…não tinha idade para andar à porrada por causa de propriedades… e então perguntei-lhe: “Ó menino… quem é que te bateu na cabeça?...ele encolheu os ombros e disse que ninguém lhe tinha batido, mas que tinha sim, caído das escadas lá na escola.

 

Tendo a perfeita noção que o tinha apanhado, retorqui: “Mas ó menino, hoje é domingo! Não há escola para ninguém! E a Tele Escola da Lousã não tem sótão, quanto mais escadas!”…Perante isto, lá começou a soluçar, dizendo:”O Doutor Ribeiro é muito bom para mim… o meu pai é que não… espeta-me uma surra todos os dias…e hoje, depois da missa, fomos às corgas, e quando me apanhou a jeito, virou-me a sachola à cara…”.

 

Já irado, indaguei: Então e porque é que o sacana do teu pai te faz isso todos os dias?”. Responde-me o garoto:”Diz que eu ando a beber… mas eu nunca bebi! Nunca! Na minha boca, só entra Água e Sumol! Nunca me meti no vinho! Mas o meu pai diz que eu é que tenho andado a esvaziar o pipo! E isso não é verdade! O meu pai e a minha tia é que abusam do álcool! Eles é que levam a garrafa para a cama, quando se vão deitar!”

 

“Mas com quem é que tu vives, rapaz?”, perguntei-lhe eu. “Vivo com o meu pai e com a minha tia.”, responde-me...“Então e a tua mãe?”, perguntei-lhe eu. “A minha mãe morreu.”…

 

“E o teu tio?”, já intrigado. “O meu tio não está cá”, disse-me o miúdo.

 

A braços com este drama, senti uma revolta interior abismal…mas tinha que me certificar que o miúdo estava a falar verdade…havia duas coisas a fazer…

 

Primeiro, sentir-lhe o hálito…ora o miúdo emitia pela boca, um cheiro sadio, em nada típico de um alcoólatra. E ainda para mais, não padecia de fígado gordo à palpação. Segundo, voltar-lhe a perguntar se estava a mentir: “Ó miúdo, tu não estás a mentir ao Doutor Ribeiro, pois não?...e o gaiato responde: “Doutor Ribeiro, estou a falar a mais pura das verdades… pela Alma da sua Mãe e da Minha!”

 

…Era tudo o que eu precisava de ouvir! A minha decisão clínica estava tomada. Este garoto era deveras saudável e o seu pai, um déspota. Peguei na jaqueta e dei a seguinte ordem: “Enfermeira Manuela, eu e este menino vamos a casa do pai dele! Escusa de estar à minha espera para jantar!”. E segui caminho.

 

Ao chegar ao seu domicílio, dou de caras com o patriarca sem escrúpulos…dirijo-me a ele e questiono-o:”Oiça lá! O Senhor é o pai deste rapaz? Então acha bem andar a dar-lhe uma coça todos os dias?...Um menino tão puro e sereno? Quando ele nem bebe e é o melhor aluno do seu ano?!”.

 

O homem, Francisco de nome, dirige-se a mim com a sua sachola, e tem as seguintes palavras para comigo, palavras essas que ainda hoje me desarranjam o estômago, se associadamente comer fritos: “O Doutor Ribeiro é bom homem, e sei que quer o melhor para a Lousã…não é isso que está em causa! Mas eu também quero o melhor para este menino! E este meu filho já me fez de tudo na vida! Primeiro, foi a Aguardente velha…enchia-se dela aos Sábados com os amigos…grandes amigos!... Depois foi o MARBORO… andava-me na cigarrada quando ia comigo para os Olivais!... Mas o pior estava para vir! Fique então a saber, Doutor Ribeiro, que este menino agora meteu na cabeça que quer ir estudar para Coimbra!! Para Coimbra, vejam só! Do que se foi ele lembrar, quando sabe que o pai não tem posses para isso e, além do mais, a sua vida é aqui na Lousã, comigo, a tratar dos animais! Então não há-de levar porrada, este safado?

 

Ouvi, em silêncio, o que este senhor tinha para me dizer, e seguidamente, imbuído de uma inspiração paternal e universal, ditei a seguinte Boa Nova: “Pois fique sabendo, que dentro de um mês, eu próprio matricularei este menino no Liceu de Coimbra, com vista a ingressar futuramente no Curso de Medicina! Pagarei os estudos deste menino, até que ele se forme e possa vir servir a Lousã!”.

 

Poucos segundos depois, a população abeirou-se das suas varandas e começaram a bater palmas, a Banda Filarmónica saiu à rua tocando canções de alegria e o gado aproximou-se do centro da vila, ao som de chocalhos, enquanto o Pai Francisco permanecia agora calado… Tudo porque eu tinha dado um Futuro a este rapaz!

29
Jan09

Crónicas do Dr. Ribeiro (2)

gana

Sobre a Manobra da Retaguarda, também chamada, a Manobra do Desenlace

 

Tempos houve em que toda a população da Lousã era servida por apenas dois médicos, Eu, e o Diamantino, o veterinário.

 

De um modo geral, nunca nos metíamos no trabalho um do outro…ele passava o tempo no campo, tratando maioritariamente bovinos e caprinos, enquanto que eu, na altura detentor de uma jovialidade e pujança invejáveis, ocupava o meu dia a ver, mais coisa, menos coisa, cerca de 20 doentes de ambulatório, deixando para fazer à noite, aquilo que mais gostava, ou seja, a orquestrar e a organizar o Grande Congresso Médico da Lousã. Este evento realizava-se todos os anos no primeiro sábado do mês de Setembro, sendo que naquele exacto ano de que trata esta crónica, prometia festa brava, pratos regionais e palestrantes oriundos dos mais diversos pontos do país.

 

Ora sobre o Diamantino, diziam-se raios e coriscos! Os mais velhos da terra contavam histórias dantescas deste homem, pelo que não se ficavam pela alcunha de O Cangalheiro de Ovelhas, visto que detalhavam ainda os pormenores mais sombrios por ele protagonizados. Entre muitos episódios, dizia-se que um dia, em pleno parto de uma vaca, Diamantino estaria ligeiramente alcoolizado, o que supostamente o teria levado a utilizar fórceps de uma forma abrutalhada…o resultado final terá sido um pequeno bezerro, que ainda hoje exibe um pedaço de fórceps incrustado no crânio, que se decidiu nunca extrair, tendo em conta o perigo de hemorragia interna. Ora o ferro no focinho não seria coisa constrangedora para um animal, não fosse o facto de a lesão cerebral lhe ter prendido as patas do lado direito, e logo incapaz de acompanhar a sua manada.

 

Noutra ocasião, consta que Diamantino terá “abafado” um periquito num copo de aguardente, acto vil e aparentemente injustificado. O Prior viria até a mencionar esta inusitada história num sermão.

 

Comigo o Diamantino sempre se comportou como um verdadeiro senhor, pelo que nunca puxei estes assuntos.

 

Então, um dia em que eu estava já no último doente, a Enfermeira Manuela entra-me pelo gabinete adentro e grita o seguinte: “Doutor Ribeiro! A égua Lusitana está a dar à luz! Venha depressa, que as águas já rebentaram! Ajude-nos! Ajude a Lousã!”. Eu, ainda estupefacto, terei perguntado o que é que um médico especializado em medicina geral e familiar ia fazer para um parto de uma égua!...mas a Manuela foi clara na resposta, que eu decerto modo já esperava…respondeu ela:”Doutor Ribeiro, ninguém encontra o Doutor Diamantino! E esta égua já nos deu em tempos um campeão nacional, o Garanhão Lousanense, pelo que este segundo potro precisa de ser tirado cá para fora com vida! O Doutor Ribeiro é a única pessoa que nos pode ajudar! Venha!”

 

Bem, não tive tempo para reflectir…vesti de novo a bata, pus o estetoscópio ao pescoço, e corri de mão dada com a Manuela até à Quinta do Vilar Branco! Quando cheguei, um espectáculo de sofrimento esperava por mim. A coitada da égua chorava a olhos vistos, as águas ensanguentadas coloriam agora o chão da estrebaria e os caseiros estendiam as mãos à cabeça. Perante este quadro de aflição, enchi o peito de ar e disse:”Tragam-me umas luvas! A Lousã vai ter um novo Garanhão!”. E comecei a esgravatar o canal de parto…e logo de súbito me deparo com um quadro ainda mais aterrador…o pequeno potro tinha o cordão umbilical enrolado à volta do seu pescoço…fiquei mortificado! Sem saber o que fazer!

 

Esperei uns segundos e surgiu-me a Revelação! Veio-me à memória a Teoria da Retaguarda do Saudoso do Doutor Andrade! Gritei então bem alto para a Manuela: “Tem que ir à Retaguarda”. E ela percebeu o que eu estava a dizer…então, enquanto eu segurava na cabeça do vulnerável potro, a Manuela introduziu o seu antebraço direito desnudado no ânus da égua…já no interior fez a manobra do desenlace que em tempos eu lhe tinha ensinado…uma manobra fácil, em que bastava agitar o feto batendo três vezes com vigor na parede rectal anterior…e ela assim fez, com uma mestria inigualável…nisto, eu sinto o cordão a desprender-se e o Garanhão é puxado cá para fora com vida, para felicidade dos caseiros e de todos os outros que estavam presentes na estrebaria!...Eu tinha salvo a vida daquele pequeno potro! Entretanto a Manuela retirou o antebraço e fomos todos para casa descansar…O sacana do Diamantino nunca mais foi visto na Lousã.

 

22
Jan09

Crónicas do Dr. Ribeiro (1)

gana

A propósito de um caso clínico bem bicudo

 

Ora estava eu acabadinho de me tornar especialista, quando me surgiu um caso enigmático pela frente…Lembro-me perfeitamente da Enfermeira Manuela me ter entrado pelo gabinete adentro, gesticulando e gritando fervorosamente: “Doutor, Doutor, está lá fora um caso bem enigmático!”. (A Enfermeira Manuela era uma mulher que eu prezava muito e na qual depositava uma confiança absoluta ).

 

Confesso que em tempos tinha mesmo ocorrido uma amizade um pouco mais colorida entre nós, tendo partilhado momentos até, eu diria, um tanto ou quanto quentes para a época. A minha mulher gostava de passar férias em Vilamoura, enquanto que eu, mais recatado, ficava pela província, pelo que a Lousã me preenchia em plenitude, mesmo em alturas de lazer. E a Manuela também me viria a preencher em todos os sentidos e mais algum, se é que me faço entender. Que mulher fogosa! E como primorosamente declamava provérbios regionais… Um homem casado também se pode divertir, desde que seja educado e tenha horas decentes para chegar a casa.

 

No que diz respeito ao caso clínico, digo-vos que numa primeira instância, me deixou algo assustado. Tratava-se de um indivíduo de meia-idade, de raça caucasiana, bem parecido e aparentemente com posses. Parecia-me ainda assim, triste, acabrunhado, com um semblante típico de um homem encornado. Perguntei-lhe o que o trazia ali, ao Centro de Saúde da sua área de residência…respondeu com alguma latência, o seguinte: “Soutor, vejo-me numa embrulhada da qual me parece difícil sair.” E continuou ainda…”Vendi uma propriedade de 6000 hectares, na qual havia anos que tirava 300 alqueires de azeitona, o que me dava azeite para todo o ano e ainda podia vender à família! Mas Soutor, fui levado à certa! O sacana que ma comprou é espanhol, e espetou-me uma boa bebedeira antes de assinar o Contrato! Então soube agora que vendi o meu lindo Olival por 100 contos de reis! Veja-me só esta desgraça! Veja-me só isto!”

 

Perante tal drama, respondi: “ Ó homem, mas isso é um caso de tribunal e não de hospital! Vá ao Juiz! Ele que lhe resolva o assunto!”

 

Mas ele retorquiu: “Mas Soutor Ribeiro, depois de ter sabido esta desgraça, desesperado, bebi toda a gasolina da minha Carrinha HIACE! E eu tinha enchido o depósito ainda meia-hora atrás! E agora, tenho uma dor de barriga que me vai para a perna esquerda…não é forte, mas o que me assustou foi a cor da urina…é preta! Tão preta quanto as minhas azeitotoninhas, que acabei de perder! o que hei-de fazer, Soutor Ribeiro? O que hei-de fazer?”

 

Bem, correu-me um frio na espinha, pior do quando soube que a minha mulher estava de gémeos, tempos em que sustentar uma criança não era fácil, quanto mais duas.

 

Mas com uma voz que saiu das entranhas e com o conhecimento que o Doutor Andrade me tinha proporcionado em tempos de Faculdade, gritei: “Manuela, despache-se! Vamos por este homem a mijar! Traga-me um isqueiro!”.

 

A Manuela nesse mesmo instante abraçou o doente por trás, ao nível do abdómen, e carregou-lhe com força no ventre, de modo a que começasse a verter águas. Eu, virado para ele, coloquei o isqueiro, aceso, junto à uretra do mesmo…Rapidamente começou a jorrar urina preta, cor de petróleo, que em poucos segundos se transformou num jacto de fogo supremo! Mijou durante 4 minutos e meio.

 

No fim da micção, já completamente depurado da gasolina, senti que tinha salvo a vida deste homem…foram as palavras sábias do Doutor Andrade: “Ribeiro, uma intoxicação por gasóleo nunca se trata forçando o vómito, pelo que rebentarias com o esófago do moribundo! É expelindo estoicamente a urina contaminada, se possível, com a ajuda de um fósforo, para apressar o processo!”

 

…Ainda hoje se conta na Lousã, a história do Mija Fogo e do Grande Doutor Ribeiro!

 

Agradecido, o pobre homem deu-me de mão beijada, um outro Olival que detinha mesmo ao lado, pelo que ainda não preciso de comprar azeite no Hipermercado. Consumo do meu, que sei que é de boa qualidade.

 

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